Fausto: A maravilha negra

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Fausto: A maravilha negra

Mensagem  Admin em Ter Dez 16, 2008 8:32 pm





Texto de Antonio Falcão

Tanto quanto o paciente do quarto 301, irmã Catarina viu que a luz da vela do oratório era fraca e semi-apagada. Há muito, na função de caridade daquele sanatório escondido nos cafundós do estado de Minas Gerais, a freira convivia com a morte de tuberculosos.

E com a de Fausto dos Santos – a quem ela incutiu a fé cristã através de doutrinação oral e de livro emprestado – não seria diferente. Só que, desde a tarde, o recém-convertido ardia em uma febre de graus elevados e a respiração sôfrega dava os pulmões como corroídos. Em todo caso, a madre rezou por um milagre, e pediu que o negro que o Rio de Janeiro lhe enviara surrupiasse do tempo algumas horas de quebra. Em vão: Fausto morreu assim que a religiosa saiu. À noitinha, quando ela voltou ao 301, a rigidez cadavérica se acentuara, razão pela qual irmã Catarina teve dificuldade em cerrar os olhos sem brilho do defunto. E a lhe cruzar as mãos inertes.

Entretanto, o que a freira ou ninguém do sanatório sabia era que aquele morto quase anônimo fora um dos maiores artistas do futebol mundial. E que com ele nascera um estilo fino e altivo de jogar bola. E de viver – mesmo que apenas os 34 anos que viveu.
Tampouco Rosa, a mãe de Fausto, imaginaria que o menino que pariu em 28 de fevereiro de 1905 fosse tão longe. A rigor, quando ela ouviu o choro do menino invadir a cidade de Codó, no Maranhão, apenas torceu que ele crescesse com saúde – o que, por si, já era pedir muito, por força da miséria do Nordeste brasileiro. Na infância de Fausto dos Santos, a vida era só uma chama iluminando o futuro melhor que a sua família foi tentar no Rio de Janeiro, então a capital e a maior cidade do Brasil.

Quando o futuro veio, em 1926, viu Fausto, alto e magro, na equipe carioca do Bangu Atlético Clube, atuando de meia ofensivo. E percebeu que ele era craque definitivo. Definitivo no toque de bola, na matada no peito, no drible e na ginga, no desarme, na preparação do gol, em tudo que viria a ser o futebolista brasileiro. Isso levou Henry Welfare – inglês radicado no Brasil e técnico do Clube de Regatas Vasco da Gama – a chamá-lo para o time do bairro de São Januário. E Fausto resistiu até 1928, quando trocou o Bangu pelo Vasco, clube da rica colônia portuguesa e da gente graúda da cidade. No estádio vascaíno, inaugurado um ano antes, ele luziria. Lá, aos domingos, sua pele negra se fundiu à camisa preta, onde a cruz de malta branca foi fincada à esquerda do peito. Mas a fama esportiva de Fausto não modificou o moço noctívago que ele era, a viver nos bares e bailes de gafieira do Rio.

Em 1929, como eixo (nome que se dava ao médio volante) vascaíno, ele ganhou o título carioca. E o respeito e a simpatia dos que o viam como o cérebro do meio-de-campo, posição para a qual fora deslocado por Welfare, que ignorava o esquema WM, criado por seu compatriota Herbert Chapman e praticado na Europa. Pela fórmula vascaína, Fausto tinha que ter um fôlego fora do comum – dele dependia o ataque. Nesse ano, além de campeão estadual, o negro de Codó estreou com êxito nas seleções carioca e brasileira.



Ano seguinte, disputaria a Copa do Mundo, no Uruguai. Mesmo cheio de craques, o escrete nacional, com três treinos, era composto de uma turma inexperiente e temerosa em fazer feio no exterior. Na estréia, o Brasil perdeu da Iugoslávia. Depois, derrotou a Bolívia. Só com essas duas partidas, Fausto foi o melhor eixo da Copa e a imprensa uruguaia o batizou de Maravilha Negra.

A partir daí, o ídolo brasileiro passou a ser ajudado financeiramente pelos portugueses ricos do Vasco da Gama. Mas com a glória, e as farras, ele vivia a sofrer impertinentes gripes e a não mais jogar, sendo aconselhado a esquecer a madrugada e o álcool.




À época, disseram-lhe que os negros eram predispostos à tuberculose e Fausto tomou isso como exagero racista, seguindo fiel à boemia. Concomitante, veio a ser um atleta irritado e freqüentemente expulso de campo. Mesmo assim, era o Maravilha de sempre: fino, elegante, habilidoso, cérebro da equipe. Tanto que, em 1931, folgando da gripe, foi com os cruzmaltinos à Europa. E encantou Madri, Barcelona e Vigo, que o compararam a um escravo levando o time nas costas. Em Lisboa, o Vasco venceu o Benfica, um misto Benfica-Vitória-Casa Pia e o Sporting, atuando ainda em Póvoa de Varzim, Ovar e Porto.

Pela exibição em Portugal, o preconceituoso cronista Alberto de Freitas disse no diário lisboeta Os Sports: “O centromédio... fez verdadeiras maravilhas em campo, passeando com um à-vontade extraordinário... Com tanta classe até se pode não ser branco”. Porém, na hora do Vasco voltar ao Brasil, Fausto aceitou a proposta – para ele, milionária – do Barcelona.

E na Catalunha fez jus ao nome e maravilhou a todos, inclusive conquistando o torneio da região em 1932. Pelo Barça, o negro brasileiro foi a Paris e teve do jornal France Football este elogio: “Ele faz com espantosa facilidade o que outros fariam com um esforço sobre-humano. Fausto, com seu futebol maravilhoso, veio ensinar à Europa como deve jogar um center-half”. Tal confissão reconhecia que o futebol-arte brasileiro chegara no Velho Mundo.

Mas a gripe voltou a prostrá-lo e isso indispôs o craque com a direção do Barcelona, que exigia que jogasse com febre. Em 1933, ele se transferiu para o clube suíço Young Fellows. E, cuidando dos pulmões combalidos e respirando ar puro, na Suíça ficou apenas dois meses.

Talvez Fausto tivesse consciência da tuberculose e de sua gravidade, mas calou. Em 1934, por já ser profissional, ele não foi à Copa do Mundo na Itália. E o Vasco o adquiriu para ter o título carioca com um time que ia de Domingos da Guia a Leônidas da Silva. Em 35, pelo brilho, Fausto atraiu a atenção do Nacional uruguaio, que comprou o seu passe para vê-lo expulso de campo e brigar com o mundo. A saúde precária do brasileiro não lhe permitia correr os dois tempos de uma partida. E o craque maranhense de Codó voltou ao Brasil para jogar no Flamengo carioca, em 1936.

A seguir, chegou à Gávea o técnico húngaro Dori Kruschner, fã do sistema WM: 3 beques, 2 médios, 2 meias e 3 atacantes. E com ele um rígido treinamento físico, até então inédito no País. Vendo que Fausto já não tinha gás, esse técnico o escalou na zaga. E o craque pediu rescisão do contrato, que lhe foi negada no clube e na Justiça. Na equipe, substituíram-no por Engels, um atacante alemão adaptado como centromédio. Em 1938, porém, vendo-se sem chance e humilhado, Fausto se retratou em carta exaltando Kruschner.

O Maravilha Negra voltaria a jogar com o aparente talento de sempre. Nessa época ele foi, até, cogitado para o escrete nacional que ia a Copa do Mundo, disputada na França. Porém, a velha gripe, cheia de tosse, veio abatê-lo de novo. Uma tarde, após jogar entre os aspirantes do Flamengo, sentiu-se mal e teve hemoptise. Quando quis retornar aos treinos, em 1939, os médicos o enviaram ao sanatório mineiro sem muita esperança de curá-la da tuberculose. E por lá Fausto dos Santos seria enterrado sem grandes pompas em cova rasa, cravada por uma tosca cruz de madeira, sem nome nem data.

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