Mathias Sindelar: O homem de Papel

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Mathias Sindelar: O homem de Papel

Mensagem  Admin em Ter Dez 16, 2008 8:01 pm





Matthias Sindelar (Matěj Šindelář, na grafia original de seu nome tcheco) nasceu em 10 de fevereiro de 1903, em Kozlov, Morávia, que então fazia parte do Império austro-húngaro. Filho de uma família pobre que se mudou dois anos após seu nascimento para Viena , estabelecendo-se no distrito de Favoriten, um subúrbio industrial habitado principalmente pela comunidade tcheca, Sindelar acompanharia as mudanças de seu tempo, estando na vanguarda tanto do esporte que abraçou (o futebol) quanto das posições políticas do efervescente princípio do século. Foi uma dessas efervescências, a I Guerra Mundial, que privou Sindelar da companhia de seu pai, Jan Šindelář, um ferreiro que tombou morto durante os combates da Primeira Grande Guerra. Essa tragédia familiar tornou o então pré-adolescente de 14 anos num chefe de família precoce. Uma família que contava com sua mãe, Marie Švengrová, e mais três irmãs.

Para sustentar a família empregara-se como mecânico, mas a habilidade desenvolvida jogando nas ruas de Favoriten com uma bola de trapos, chamou a atenção do Hertha de Viena, onde ingressou no time de menores aos 15 anos. Por lá ficou seis anos, até se juntar ao clube chamado então pelo nome de Wiener Amateur-SV, futuro FK Austria Viena, um clube ligado à classe média judia da capital austríaca. Ao chegar ao Amateur, Sindelar encontrou um time campeão da última liga e também desconfianças sobre seu físico franzino para o enfrentamento de um campeonato mais duro. De fato, na primeira temporada, Motzl, como era chamado pelos companheiros, sofreu uma grave lesão nos meniscos o que o levou a uma intervenção cirúrgica bastante complicada para os padrões de sua época, mas que não o impediu de retornar em poucos meses. Nos anos seguintes Sindelar seria campeão da copa da Áustria em 1925 e 1926 e nesse ano também campeão da liga austríaca, que tornara-se profissional um ano antes. Os anos seguintes não foram muito bons para o Amateur que já se chamava FK Austria em 1926. Terminando o campeonato quase sempre no meio da tabela, o FK só voltaria a vencer regularmente na década seguinte, quando conquistaria mais duas copas nacionais e duas edições da Mitropa Cup, a competição de clubes que originou a Copa dos Campeões da Europa. Sindelar, por sua vez iniciava sua trajetória na seleção austríaca.



Sua estréia ocorreu num jogo contra a Tchecoslováquia, marcando na vitória de 2x1 dos austríacos. Nas duas partidas seguintes, Sindelar voltou a marcar mais três gols, dois na vitória contra a Suiça por 7X1 e mais um contra a Suécia em novo triunfo, desta vez por 3x1. Era então o ano de 1926 e Sindelar tinha apenas 23 anos de idade, mas começava a marcar uma nova era para o futebol europeu. As qualidades mais mencionadas no jogo de Motzl sempre foram seu estilo clássico e elegante, inteligente e simplificador. Rápido, centroavante díficil de marcar, alto e magro, a exatidão e a leveza com que driblava ou executava os passes levaram o torcedor a apelidá-lo de Der Papierene (homem de papel). Com jogadas imprevísiveis e gols de rara beleza, Sindelar tornou-se um dos maiores goleadores da liga austríaca com 161 gols ao longo da carreira, fazendo também 27 gols em 43 partidas pela seleção de seu país e 497 ao todo, registrados na sequência de jogos que pode ser encontrada nesta lista.

Mas a importância de Sindelar para o futebol austríaco e europeu está além do que os números podem mostrar. Para historiadores do esporte como os franceses Jean-Philippe Réthacker e Jacques Thibert, Der Papierene foi o mais completo centroavante da história do futebol do velho mundo. Além desses testemunhos elogiosos, recai sobre Sindelar o papel de viga mestre para a formação do Wunderteam (o time maravilhoso), um dos primeiros grandes esquadrões do futebol mundial e que, como outros de seu naipe não marcaram sua existência por um grande título, mar por grandes atuações ao longo dos anos. De fato, a equipe montada por Hugo Meisl que conceitou, juntamente com o inglês Jimmy Hogan, uma nova maneira de distribuir os jogadores em campo e efetuar táticas ofensivas, acumulou anos de glória entre o perído de 31 a 34 com marcas espantosas como as 9 vitórias conquistadas em 12 partidas disputadas no período com mais dois empates ambos contra a Tchecoslováquia e a única derrota por 4x3 para os ingleses em Wembley, quando se obsevou uma marcação severa sobre Der Papierene. Entre os triunfos austríacos estão várias vitórias retumbantes como 5x0 na Escócia e na Alemanha, ambos no campo do adversário e um 8x1 na Suécia. A Itália também perdeu em casa para o time maravilhoso por 2x1. Entretanto, foi a Itália que, numa partida muito polêmica devido a todo o clima bélico que cercou a Copa do Mundo de 1934, realizada na bota, tirou a Áustria de uma final a vencendo pelo placar de 1x0 e com um gol de Sindelar anulado pelo juiz da partida. O mesmo que depois apitaria a final que consagraria os italianos como campeões, mas que também tornaria suspeita a participação de Benito Mussolini nos episódios de bastidores daquela Copa, a qual parecia um palco ideal para desenvolver sua propaganda fascista.



Essa seria a primeira vez que o signo do absolutismo marcaria a vida de Sindelar, mas não a última. Nos anos seguintes um preço mais caro que uma desclassificação num campeonato de futebol lhe seria cobrado. Em 1938, a Áustria era anexada pela Alemanha nazista e os jogadores do Wunderteam eram solicitados para fazerem parte da nova seleção alemã que tencionava triunfar na copa da França. Um jogo amistoso entre as seleções da Áustria e da Alemanha tinha sido marcado para fazer propaganda da máquina nazista e para assinalar o final da seleção de Meisl. Diz-se que os jogadores do Wunderteam tinham sido instruídos a não vencerem a partida. Perdendo gols explícitos no primeiro tempo, Der Papierene marcou o primeiro na vitória por 2x0 contra os estupefatos alemães. Não satisfeito em demonstrar que poderia ganhar quando quisesse, Sindelar ainda comemorou seu gol defronte da tribuna onde se encontravam as autoridades do Reich. Aquilo parece ter marcado o destino do Homem de Papel. Requisitado para participar do time germânico, ele recusou, sempre procurando uma desculpa. Segundo testemunho do técnico alemão Sepp Herberger, que seria campeão do mundo em 54, estava claro para ele que Sindelar se sentia incomodado com a possibilidade de vestir a camisa alemã. De fato, Matthias não gostava da política anti-semita e belicosa dos vizinhos e foi tachado como amigo dos judeus e simpatizante dos comunistas, num relatório da polícia secreta,uma espécie de sentença de morte velada. Deixando o futebol cada vez mais de lado para se afastar do assédio nazista, Sindelar foi encontrado morto em seu quarto em 23 de janeiro de 1939, portanto ainda com 35 anos. Ele e sua namorada, a italiana Camila Castagnola, na versão oficial, foram vitimas de envenenamento acidental por monóxido de carbono, mas as versões sobre um suícidio ou sobre um assasinato encomendado pelas autoridades sempre estiveram em voga para o caso. O fato é que Matthias Sindelar morria deixando um legado concreto e ideológico para a posteridade. Transformara-se em lenda com suas atuações no futebol, moldando um dos melhores times da história do esporte, ganhando vulto como um personagem lendário de uma época romântica. Mas também sendo um homem de seu tempo, se posicionando segundo seus valores e contra os ideais que desprezava, por mais ameaçadores que fossem estes.
Seu lugar na história está assegurado. A maior prova é um dos codinomes que ganhou: "Mozart do futebol". Para um austríaco qual maior reconhecimento poderia haver? Se há, também esta ele teve. Sindelar foi levado em seu cortejo fúnebre por uma multidão de 40.000 compatiotras e admiradores. Foi sepultado no mesmo lugar que também guarda os restos mortais de Mozart, Beethoven e Schubert. Uma justa homenagem para aquele que foi eleito o melhor jogador austríaco do século passado e que, como seus ilustres compatiotras encheu o coração dos que o assistiram com a poesia do sublime...

Aqui você pode ver um pequeno documentário em espanhol sobre Matthias Sindelar:

1. Sindelar 1

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